Brasília, segunda-feira, 11 de junho de 2007.
Meninas prostitutas ou
prostituídas?
Dioclécio Campos Júnior
Médico,
professor titular da UnB e presidente da Sociedade rasileira de Pediatria
dicampos@terra.com.br
Há unanimidades de opinião inservíveis. Não têm correspondência
com ações que possam transformar realidades degradantes. Mormente quando urgem
reformulações morais ou avanços éticos. Nesses casos, tende a reinar a
passividade cúmplice ou a hipocrisia sem limite. Assim se comporta a sociedade
diante de violências que se arrastam sem solução, apesar do repúdio coletivo que
aparenta rejeitá-las.
A prostituição infantil é problema que expõe a
ambigüidade dos porta-vozes das elites. Todos concordam que se trata de ferida
terrível a desmerecer a imagem do país. Todos concordam que não se devem adiar
as medidas necessárias ao tratamento de doença social cuja expansão parece fugir
ao controle.
No entanto, as ruas das capitais brasileiras estão povoadas
por meninas prontas a alugar os frágeis corpos em troca de parcas moedas ou de
um prato de comida que lhes atenue a fome. São crianças pobres, carentes,
desprotegidas, relegadas à própria sorte na ebulição desumana das cidades
modernas. Vítimas de um modelo social que lhes rouba direitos fundamentais,
estão condenadas não à morte, mas à vida.
São atemporais, não vislumbram
a perspectiva do amanhã. Realistas, porque se restringem à fronteira segregadora
do hoje, à cronologia fugaz do agora. Falta-lhes o viço imanente à infância. Não
chegam a ser adolescentes porque a vida não lhes permite ser crianças. Tampouco
são criaturas a desabrochar na floração da ingenuidade original. Não brincaram,
não fizeram-de-conta, não sonharam. Crescem ao acaso, reféns do azar. Não passam
de objetos, jamais sujeitos. São usadas e abusadas, como mercadorias, por
monstros covardes que só conseguem ejacular a bestialidade de mente grotesca.
A economia das regiões turísticas do país passou a depender do trabalho
de meninas nascidas para a infelicidade. Crianças miseráveis que produzem
riqueza para outros, oferecendo os corpinhos violados à selvageria dos
consumidores do turismo sexual. Escândalo divulgado à exaustão. Contudo, quase
nada se faz para conter a torpe ignomínia. Ou melhor, faz-se alguma coisa: vista
grossa. Até porque, na lógica amoral do mundo econômico, as pobres crianças são
imprescindíveis porque geram emprego.
O Congresso Nacional preocupa-se
até com a perda da liberdade de expressão dos venezuelanos. Não se dá conta,
porém, de que nossas meninas prostituídas não têm liberdade. Muito menos a de
expressão. Os governantes, por seu turno, talvez desconheçam que nossas mocinhas
de rua são iguais às suas filhas. Têm, ao nascer, potenciais genéticos
similares, mesmas necessidades afetivas e nutricionais, beleza infantil e pureza
originária. Só diferem na acolhida assegurada pela sociedade. A umas, a mais
completa e afetuosa. A outras, nenhuma. Só o descaso, a humilhação, a agressão
emocional e afetiva, por certo a pior de todas.
Não cabe falar em
prostituição infantil. O conceito é tendencioso, inculpa quem ainda não tem
maturidade, nem terá, para o processo decisório que a transação do corpo
feminino requer, no livre mercado do sexo. A criança não decide prostituir-se. É
prostituída covardemente por um adulto — este sim — ciente do crime que comete.
Não há meninas prostitutas. Há adultos prostitutos, quase todos impunes. A
violência que cometem é hedionda, brutalidade que atenta contra a moral, a
ética, a justiça. Além de conspurcarem seres humanos em fase de crescimento e
desenvolvimento, portanto tenros, vulneráveis, sem condições de defesa,
aproveitam-se da pobreza material das vítimas para corrompê-las.
A
exploração sexual de menores só prospera em sociedades que abandonam crianças.
Logo, são inócuas as leis punitivas dos corruptores. Não atingem a causa do mal.
Para tanto, é imperioso proteger as crianças desde a fecundação; irrigar-lhes a
vida com afeto, boa nutrição e estímulos saudáveis; investir na segurança da
maternidade; garantir a plenitude do ciclo de vida destinado ao crescimento e ao
desenvolvimento, vale dizer infância e adolescência. Já passa da hora de o
Estado prover educação infantil, ensino fundamental e médio de qualidade, em
tempo integral, para todas as crianças. Única prioridade capaz de erradicar as
prostituições da vida brasileira.
A persistir a realidade atual de
desprezo com a infância pobre, seria menos hipócrita orientar meninas
prostituídas a reagir segundo poema de Vinícius de Morais: “Por que não ateais
fogo às vestes e vos lançais como tochas contra esses homens de nada, nessa
terra de ninguém?”